"Companheiros, na minha prática de contadora de histórias venho observando, a partir do retorno das crianças, que a depressão parece estar se espalhando entre os homens como epidemia... Talvez a depressão se dê pelo fato das pessoas não estarem encontrando saídas para seus labirintos internos, fruto de um grande labirinto externo, formado por uma rede de oposições. A partir da sua vivência nessa II SEMANA BRECHT – TEATRO e DIALÉTICA peço que você escreva uma carta ao melancólico/a relatando seu processo nesses dias. Este relato é absolutamente livre, não precisa se relacionar necessariamente com narrar sua participação nos exercícios ou ser sua opinião sobre a semana, mas sim uma escrita sobre seus pensamentos sobre sua própria autodivisão, sobre um mundo dividido em classes sócias, sobre a cisão, o corte e o lamber de feridas. Peço que depois dessa escrita você leiam uns para os outros essas cartas e que por favor, digitem-nas no computador e mandem para o email: limarina70@gmail.com.
Obrigada a todos por ajudar a cuidar das minhas feridas e as feridas do mundo..."
1.
Carta para um coração Aflito
A vida é cheia de altos e baixos, muitas vezes, mais baixos do que altos, mas, cabe a cada um de nós encarar essas dificuldades/problemas de forma positiva. Pois o que seria do homem se não fosse as dificuldades que a vida nos impõe no dia a dia? Será que teríamos um bom caráter? Será que aprenderíamos a viver melhor, ou não?
Vejo essas dificuldades, como grandes montanhas difíceis de serem escaladas, onde muitas vezes os ventos que nela bate nos força a abandonar tudo largar e cair, ou a apenas voltar a traz, mas, se prestarmos atenção, veremos que a distancia cr voltarmos seria a mesma de se chegar ao topo da montanha. Então, por que não continuar e prosseguir a escalada?
Nessa subida aprenderemos a confiar naqueles que estão conosco nessa escalada, aprenderemos a ser persistentes e ansiosos para saber o que nos espera, aprenderemos a ter esperança e fé e confiança sempre. Ou seja, não veja as dificuldades que a vida nos impõe como uma tragédia, ou algo que vai te destruir, mas, veja como uma força que vai te moldar e lapidar ternando-o uma pessoa melhor e mais forte.
O ouro para se tornar limpo, puro e reluzente ele deve passar pelo fogo e o mesmo acontece com o homem no geral, Deus permite certas situações em nossas vidas mesmo as ruis, pois Ele em sua magnitude e em sua infinita bondade sabe que, com ela iremos amadurecer e assim como uma criança ao aprender a andar cai e se machuca, mas mesmo assim ela não desiste e de aprender a andar, terá a alegria de sua conquista que é andar!
Att.
Neuma
2.
Carta aos melancólcos
Ver lá dentro. Olhar pra si.
Enxergar as mazelas e os pontos que nos puxam em forças opostas, mas que estão presentes em nós. Não se envergonhar de ser muitos, todos, em uma contradição infinita de desejos e potencialidades desperdiçadas.
Sou feliz na minha infinitude em me perceber insignificante diante do mundo e, ao mesmo tempo, a mais concreta e perfeita confusão ambulante, apaixonada e dotada de todas as imperfeições, sujeiras e de todos os brilhantes.
Sendo assim, cada qual no mundo tem seu lugar dentro de si mesmo, para encontrar sua força e sua gloria. E cada um vai achar o lugar em que quer colocar o dedo no mundo.
Aline
3.
Para aquele que se encontra perdido.
Para aquele no vácuo.
Para nós mesmos.
Para si mesmo.
:
O olhar é reflexo. Pensas naquilo que espelhas.
Se não lhe agrada a imagem, tome posição e altere-a. É seu movimento, sua iniciativa que transforma.
Nem sempre nos encaixamos na posição que queremos. E tudo parece estar errado. Proponho que analise sua postura na figura e compreenda o que pode fazer para altera-la.
P.S.: Amigo,
Eu lhe escrevo de um lugar comum.
Posso partilhar do que pensas.
Posso apenas vivenciar.
Campo Grande, 25 de Novembro de 2011
Ana Paula
4.
Melancólico
Você não é integrante de classe como causa de fato já posto de antemão. Você é classe de exclusão, em que se exclui de si mesmo sem se incluir em nada mais. Você é a ausência de contradição, é a própria coerência lógica por excelência e dono da vontade que julga sua, como são seus os outros e todos os que nem mesmo são. Você tem ausência da falta, lhe sobra o excesso de tudo e por isso não tem como transbordar, mas acumula. Por ser um e não vários basta a si mesmo e se usufrui no espelho. O outro, antes de ser outro é apenas mais um você. O vazio precisa de espaço e ocupa todo seu ser ao ser o que lhe sobra: o tudo é o nada que agora lhe atinge a alma. Sua certeza é dúvida que não fala, sua lógica é dialética sem voz. Você é a imagem do que vai fazê-lo ruir na ausência, pela falsa impressão de ter, pelo falso desejo de se esconder. Resta-lhe uma enorme dor de amor não correspondido de si mesmo.
Alfredo
“(Brasil – versão brasileira: Oduvaldo Vianna Filho)
SLIDES:
1. Fachada de fábrica – “Fundição Vidigal”.
2. Operários trabalhando com cadinho. Ferro derretido no chão. Operários descalços, sem proteção
3. O rosto de um operário. Rosto terminado, batido, fosco.
4. O escritório da companhia. Persianas, tapetes.
5. Operários comendo marmitas nas ruas.
6. Ar refrigerado no escritório. Uma garrafa de whisky em cima do aparelho. Biscoitinhos.
7. Vidigal embarcando num avião. Adeuses.
8. Vidigal numa piscina. Um garçom serve-lhe a mesa com whisky.
9. Vidigal de smoking no baile do Municipal. Uma artista de cinema ao seu lado. Dá adeusinhos do seu camarote. Vidigal tem um chapeuzinho carnavalesco na cabeça e ri.
10. Vidigal embarcando num avião. Adeuses.
11. Vidigal no seu automóvel. Um chofer lhe abre a porta.
12. Uma assembléia de operários. Sala esfumaçada. À cunha.
13. Um velho operário falando. Sem dentes.
14. Um operário jovem. Punhos cerrados.
15. Uma mulher amamenta seu filho.
16. Operários batem palmas de pé.
17. Um velhinho e uma velhinha ouvem.
18. Barraquinhas pegando assinaturas.
19. Uma mulher fazendo um discurso numa camioneta.
20. Deputados dormem...
21. Muro pichado: “Comissão para o capital estrangeiro”.
22. Dados relativos às denúncias feitas pelas comissões parlamentares de inquérito.
23. Porta de fábrica. Tabuleta “Não há vaga”
24. Fila de gente procurando emprego.
25. Fila de gente dormindo na rua.
26. Manchete de “O Globo” – Não há petróleo no Brasil.”
- Assistimos juntos a parte da fala da Profa. Dra Maria Sílvia Betti contida na coletânea intitulada: Brecht no Cinema que trata da apropriação dos conceitos brechtianos pelo teatrólogo brasileiro Oduvaldo Vianna Filho;
- Foi lida em voz alta a primeira cena da peça “Brasil-versão brasileira” de Oduvaldo Vianna Filho;
- Breve diálogo sobre alguns aspectos da apropriação da práxis brechtiana no Brasil;
- Duplas. Jogo do espelho. Primeiro estímulo para a pesquisa de movimentos: eu me rasgo na frente do espelho, eu me autodivido, eu sou autodividida, minhas contradições me dividem constantemente. Segundo estímulo para a pesquisa de movimentos: eu curo as minhas feridas.
- Apresenta-se uma série de projeções de imagens aos participantes que podem representar uma certa “cisão social”.
A partir dessas imagens, cada dupla, deve escolher uma delas. Depois, devem instalar em seus corpos uma ou mais peças brancas trazidas e criar uma partitura de ações para dialogar com a imagem escolhida. O estímulo para a criação da partitura é a pesquisa realizada até então durante a semana;
- Apresentação de cada dupla.
Neste dia fomos convidados a apresentar alguma imagem cênica no evento “Sarau dos Amigos” que acontece mensalmente na cidade. Para tanto, retrabalhamos em uma sequência de ações, a relação criada pelas duplas entre seus corpos e as imagens: cisão individual sobreposta à cisão social. Acrescentamos também a essa série de imagens a leitura da carta de estudantes guarani-kaiowá da UFMS sobre o massacre de índios em acampamento em Amambaí:
"Por volta das seis horas chegaram os pistoleiros. Os homens entraram em fila já chamando pelo Nísio. Eles falavam segura o Nísio, segura o Nísio. Quando Nísio é visto, recebe o primeiro tiro na garganta e com isso seu corpo começou tremer. Em seguida levou mais um tiro no peito e na perna. O neto pequeno de Nísio viu o avô no chão e correu para agarrar o avô. Com isso um pistoleiro veio e começou a bater no rosto de Nísio com a arma.
Mais duas pessoas foram assassinadas. Alguns outros receberam tiros mas sobreviveram. Atiraram com balas de borracha também. As pessoas gritavam e corriam de um lado para o outro tentando fugir e se esconder no mato. As pessoas se jogavam de um barranco que tem no acampamento. Um rapaz que foi atingido por um tiro de borracha se jogou no barranco e quebrou a perna. Ele não conseguiu fugir junto com os outros então tiveram que esconder ele embaixo de galhos de árvore para que ele não fosse morto.
Outro rapaz se escondeu em cima de uma árvore e foi ele que me ligou para me contar o que tinha acontecido. Ele contou logo em seguida. Ele ligou chorando muito. Ele contou que chutaram o corpo de Nísio para ver se ele estava morto e ainda deram mais um tiro para garantir que a liderança estava morta. Ergueram o corpo dele e jogaram na caçamba da caminhonete levando o corpo dele embora.
Nós estamos aqui reunidos para pedir união e justiça neste momento.
Afinal, o que é o índio para a sociedade brasileira?
Vemos hoje os direitos humanos, a defesa do meio ambiente, dos animais. Mas e as populações indígenas, como vem sendo tratadas?
As pessoas que fizeram isso conhecem as leis, sabem de direitos, sabem como deve ser feita a demarcação da terra indígena, sabem que isso é feito na justiça. Então porque eles fazem isso? Eles estão acima da lei?
O estado do Mato Grosso do Sul é um dos últimos estados do Brasil mas é o primeiro em violência contra os povos indígenas. É o estado que mais mata a população indígena. Parece que o nazismo está presente aqui. Parece que o Mato Grosso do Sul se tornou um campo de fuzilamento dos povos indígenas. Prova disso é a execução do Nísio. Quando não matam assim matam por atropelamento. Nós podemos dizer que o estado, os políticos e a sociedade são cúmplices dessa violência quando eles não falam nada, quando não fazem nada para isso mudar. Os índios se tornaram os novos judeus.
E onde estão nossos direitos, os direitos humanos, a própria constituição? E nós estamos aí sujeito a essa violência. Os índios vivem com medo, medo de morrer. Mas isso não aquieta a luta pela demarcação das terras indígenas. Porque Ñandejara está do lado do bom e com certeza quem faz a justiça final é ele. Se a justiça da terra não funcionar a justiça de deus vai funcionar.
Estudantes Guarani e Kaiowá dos cursos de ciências sociais e história e moradores da aldeia de Amambaí."
- Assistimos o primeiro trecho do filme “Notícias de uma antiguidade ideológica” de Alexander Kluge;
- Jogo do nome e gesto: cada participante diz seu próprio nome realizando um gesto envolvendo mais partes do corpo;
- Jogo da ação com a primeira letra do nome: realizar uma ação, realizar um verbo com o corpo, que tenha como primeira letra a primeira letra do seu nome;
- Pergunta lançada ao grupo: qual a diferença entre a corporeidade do primeiro e do segundo jogo?
- Cabeça, ombro, joelho e pé;
- Aratatá;
- Pergunta lançada ao grupo: qual a diferença entre as duas canções na relação que elas estabelecem entre palavra e gesto?
- Jogo do espelho em duplas. Um de frente para o outro. Espelhamento que vai do pleonástico (um imita o outro fidedignamente) ao não-pleonástico (um propõe os gestos e o outro reflete uma oposição a esse gesto). Como eu percebo a imagem de um Outro em mim? Quantas vozes e imagens distintas e contraditórias moram no meu corpo?;
- Analisamos no telão algumas montagens fotográficas do artista Alexander Rodchenko e algumas colagens do movimento dadaísta;
- Pergunta lançada ao grupo: Quais forças opostas formam os nós/contradições que habitam seu corpo?
- Componha uma montagem/colagem com as imagens que você coletou que possa responder à pergunta lançada. Submeta seu processo ao participante que realizou com você o jogo do espelho.
PEDIDO DE TAREFA A SER REALIZADA FORA DO ESPAÇO DO CURSO: trazer para o próximo encontro uma peça branca (de qualquer material) que possa ser instalada no corpo.
Passo quantitativo 1- Massagem em dupla: o acesso ao corpo do outro é realizado através de uma bolinha de tênis;
Passo quantitativo 2- Telefone sem fio de palavras com todo o grupo de participantes;
Passo quantitativo 3- Telefone sem fio de “caretas” (o grupo foi dividido em três partes);
Passo quantitativo 4- Em duplas: Jogo Blablação/ Tradutor-Palestrante/Viola Spolin: utilização de “temas” do momento, que estão sendo discutidos ou não pela “grande mídia”, sugeridos pela platéia;
Passo quantitativo 5- Jogo do olhar: grupo em roda – troca-se de lugar na roda a partir do contato visual entre uma dupla.
Passo quantitativo 6- Jogo Maria Lúcia de Souza Barros Pupo: cada participante é convidado a definir individualmente uma frase. Definido isso, são convidados trios a ir ao espaço de jogo. A esse trio é apresentado, de forma que a platéia não saiba, três ações que podem ser agrupadas como “ações de trabalho” (exs: martelar, dançar, pintar, cozinhar, palestrar, carpir etc...). Cada participante não pode parar de executar uma das três ações determinadas, durante o tempo de “jogo improvisacional” que é definido pelo coordenador, passando pelas três ações e modificando as maneiras de se realizar cada ação. A frase pode ser dita apenas em contato visual com outro integrante do jogo;
Passo quantitativo 7- Assistimos ao curta-metragem: A Alma do Negócio de José Roberto Torero (http://www.youtube.com/watch?v=foYTAmStiJg);
Salto dialético- Roda de discussão estimulada (pelo coordenador) socraticamente através de perguntas. Primeira pergunta lançada: o que pode haver de comum em jogos aparentemente tão distintos? Analisamos a forma de cada jogo e dialogamos bastante até identificar as “mediações” contidas em cada jogo. O que é um mediação? O que é a categoria da mediação para a filosofia dialética? O que é a mediação para Marx?
Fechamos o encontro lendo as páginas do capítulo “A Contradição e a Mediação" do livro O que é dialética? de Leandro Konder.
- Apresentação do curso;
- Roda, apresentação dos nomes de cada integrante do curso, criação da “teia” do grupo: criação da primeira possibilidade imagética para a “filosofia dialética”;
- Costura humana: aprendendo a dar nós com o próprio corpo;
- Nó humano: aprendendo a desfazer nós de forma coletiva;
- Pergunta para respondermos juntos: O QUE É UM CONFLITO? O QUE FORMA UM NÓ?
- Escutar a música Geni e o Zeppelin de Chico Buarque e provocar um nó num pedaço de fio de barbante a cada conflito identificado na música;
- Partilha dos nós identificados: mais discussão para a formação de um conceito coletivo para a noção de “contradição”;
- Pergunta lançada a todos: QUE NÓ VOCÊ GOSTARIA DE DESATAR NO MUNDO?
- Formação de grupos: criar um tableaux, uma imagem congelada, com a representação de um desses nós levantados coletivamente: como através de uma imagem cênica é possível alertar para uma contradição que precisa ser resolvida? Como regra de jogo, cada grupo deve utilizar o barbante (da maneira que melhor convir) como parte constituinte da cena.
PEDIDO DE TAREFA A SER REALIZADA FORA DO ESPAÇO DO CURSO: coletar imagens bidimensionais retirados de qualquer suporte que te formam enquanto indivíduo. Que forças opostas compõem seu corpo, pensamentos e desejos? Que imagens podem representar a sua cisão interna entre gesto e pensamento?
Fotografaram a II Semana Brecht – Teatro e Dialética: Lígia Marina, Natália Cabral, Elis Regina e Ricardo Silva
Somou-se ao material pedagógico entregue à Biblioteca do Pontão de Cultura Guaicuru na ocasião da I Semana Brecht o seguinte material:
- Os livros: O que é dialética? de Leandro Konder e Marx de Terry Eagleton
- As peças: Os Azeredo mais os Benevides; A mais valia vai acabar, seu Edgar; Brasil – versão brasileira; Rasga Coração; Longa noite de cristal; Auto dos 99% de Oduvaldo Vianna Filho e Não tem imperialismo no Brasil de Augusto Boal
- Os textos: Apontamentos sobre prólogo inédito para “Rasga Coração” (fragmentos) de Oduvaldo Vianna Filho (1936/1974) e “Rasga Coração”, de Oduvaldo Vianna Filho: perspectivas formais da representação sócio-histórica de Maria Sílvia Betti
Os filmes: Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein, o Capital de Alexander Kluge e Brecht no Cinema
Esta é uma relação de jogos, procedimentos, metodologias para tratar de teatro e filosofia dialética EM MAUS TEMPOS: tentativa práxica de transformar o mundo transformado...